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A tecnologia de um inventor anónimo que está no centro de muitas atenções

Fonte: Público

Quando Satoshi Nakamoto (quem quer que seja a pessoa, ou pessoas, por trás do pseudónimo) inventou a divisa digital bitcoin, tinha como objectivo criar uma forma de pagamento que funcionasse através da Internet e sem instituições financeiras. No entanto, o sector financeiro é dos que está a olhar com mais atenção para o sistema de registo e verificação de transacções que permitem àquela moeda funcionar.

A bitcoin assenta na chamada blockchain: uma base de dados distribuída, que regista todas as transacções feitas e que é mantida pelo esforço colectivo dos vários computadores ligados à rede. As bitcoins – que continuam a ser um produto de nicho, com grandes flutuações de valor e usadas tanto por entusiastas libertários como por criminosos – precisam da blockchain. Mas esta pode ser usada para outros fins: por exemplo, para manter registos de propriedades, do percurso de mercadorias, de acções de uma empresa e de basicamente tudo o que possa ser transaccionado. A tecnologia poderá também servir, por exemplo, para assegurar o cumprimento de um contrato quando se verificarem determinadas condições, como o pagamento de uma encomenda quando esta chegar ao destinatário.

A blockchain é uma das inovações listadas pelo Instituto Atomium (um consórcio de universidades, jornais e empresas para promover a difusão da ciência e que está a lançar esta semana um questionário online sobre a Internet em que o PÚBLICO é um dos participantes) num relatório sobre as tecnologias que vão marcar os próximos anos. Da lista fazem ainda parte os carros autónomos (que várias marcas já disseram querem ter nas estradas no virar da década), a realidade virtual (na qual empresas como o Facebook e a Microsoft estão a investir) e a impressão 3D (que está a ser amplamente usada na indústria).

O funcionamento da blockchain é diferente do de um registo central, que tem de ser mantido por um intermediário no qual as partes têm de confiar (como um banco). De forma simplificada, o conceito implica que novas transacções sejam registadas num bloco que é acrescentado aos já existentes e que tem uma ligação ao bloco imediatamente anterior, o que permite manter um historial de todas transacções.

Para levar a cabo o processo de acrescentar um novo bloco, vários computadores (que usam o mesmo software e estão ligados entre si) tentam resolver uma espécie de problema matemático. No caso das bitcoins, o primeiro a resolvê-lo recebe novas bitcoins – é assim que a divisa é “emitida”. A ideia é que quem aplicar mais recursos (como poder de computação e electricidade) a manter o registo é recompensado por isso.

Cada elemento da rede guarda uma cópia do registo de transacções e recebe novos blocos pouco depois de estes terem sido criados. O registo é público e verificável por qualquer pessoa.

A tecnologia é hoje um tópico quente em alguns círculos. Um relatório do banco Santander estimou que um sistema de registo bancário com base nesta tecnologia reduziria os custos do sector em cerca de 15 a 20 mil milhões de dólares por ano. Por seu lado, a IBM já recorreu a este sistema para desenvolver soluções para a transportadora Maersk, uma gigante dos cargueiros, e está a trabalhar com o sector farmacêutico chinês. Uma startup norte-americana chamada bext360 usou o sistema de blockchain para criar uma plataforma de pagamento aos vários elementos da cadeia de produção de café. Os exemplos podiam continuar.

“Propusemos um sistema de transacções electrónicas que não assenta na confiança”, escreveu Satoshi Nakamoto, no documento de 2008 em que descreve a bitcoin, e que foi publicado com o formato típico de um artigo científico. A proposta está a ser levada a sério.

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