Review: Call of Duty: WWII

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Ter, 07/11/2017 - 20:26

Introdução

A 29 de outubro de 2003, Call of Duty lançava-se de forma espetacular na cena gaming com um jogo que se apresentava como “sequela espiritual” de Medal of Honor: Allied Assault -apesar de ser outro franchise, a equipa e motor de jogo eram os mesmos. Inspirado por blockbusters de Hollywood como “Saving Private Ryan” e séries de culto como “Band of Brothers”, este shooter transportava o jogador para diferentes cenários de conflito da Segunda Guerra Mundial, sempre com muita ação e elementos cinematográficos capazes de criar momentos memoráveis e raramente vistos em videojogos até então.

Com quase cinco milhões de unidades vendidas a nível global, Call of Duty prometia um futuro de sonho para as developer Infinity Ward e distribuidora Activision. Catorze anos e catorze sequelas depois (sem contar com spin-offs) as previsões da altura estão mais que confirmadas. Call of Duty é um dos maiores franchises do mundo gaming, e se muitos se revoltam contra a regularidade anual de lançamentos, para muitos (milhões) de outros é o título pelo qual anseiam a cada ano que passa.

Em fórmula mágica não se mexe, e o constante desenvolvimento de títulos com altos valores de produção tem provado ser uma fonte de muita diversão para os fãs e de grandes lucros para a gigante Activision. WWII é um regresso às origens e uma tentativa de lançar uma nova geração de CoD.

Será que cumpre?


Um regresso às origens

Depois de 14 anos a progredir entre os temas de Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria, Vietname e cenários bélicos modernos e futuristas, a mais recente entrada na série faz o jogador regressar ao ponto onde tudo começou. Como o nome indica, o palco da campanha de Call of Duty: WWII remete a uma representação de cenários devastadores da Segunda Guerra Mundial – mais especificamente lançando o jogador na pele de um soldado americano durante o desembarque na Normandia.

Estes primeiros momentos do jogo parecem ser um “acenar” ao primeiro Medal of Honor (a origem de toda a saga) com uma missão preenchida de gritos, mortes aterrorizantes e pânico nas areias da costa francesa. Forte e impactante, é aqui que percebemos que estamos perante um título especial. É precisamente durante todo esse cenário apocalíptico que algo acaba por sobressair: somos nós a avançar, a controlar o momento e a personagem.

Se não deveria ser motivo de surpresa, a verdade é que os títulos mais recentes de Call of Duty sofriam com uma grande necessidade de “cinematografia forçada”, quase obrigando o jogador a olhar para sítios específicos e ver o jogo desenrolar-se por si mesmo, ao invés de lhe dar o controlo do momento. A história desenvolve-se em torno de um grupo de soldados que se vê perante decisões morais de nível pessoal, patriótico e oficial. E se as personagens que vão sendo apresentadas acabam por cair nos “clichês”, (como o “líder ultra agressivo que afinal tem um coração de ouro”; “a espia francesa sedutora”; “o irmão de armas otimista que infelizmente deve acabar por morrer para efeitos dramáticos”), a história vai desafiando estas convenções com regularidade e encontra espaço para surpreender o jogador.

Mais do que surpreendidos, a sensação de estar exposto e ser desafiado por adversários realmente ameaçadores deixou-nos satisfeitos. O jogador não é o herói glorificado que aparece para salvar o dia. Aqui, o nosso avatar é um soldado no meio de soldados, uma personagem que luta pela vida num cenário realmente atroz e no qual cada decisão errada pode ditar o fim da sua história – que o obriga a recomeçar a missão num momento prévio.

Sim, a “kill count” pessoal acaba por se revelar incrivelmente grande no final das cerca de dez horas de campanha, mas o guião consegue manter os pés assentes no chão através de personagens credíveis, que nos fazem querer descobrir a sua estória – algo que não tem sido tão regular nos últimos títulos da saga.

Desengane-se quem parte para este novo título com esperanças de uma revolução total na mecânica de jogo e storytelling de Call of Duty. Na sua essência, é o clássico atirador fantástico, dinâmico e cheio de ação pelo qual nos apaixonámos há quinze anos, mas aqui com umas nuances que o fazem sair da sua zona de conforto e apresentam melhorias significativas em relação a episódios anteriores.

Os fãs da série vão voltar a deliciar-se com a ação frenética, o tom sério e os momentos tensos e de cortar a respiração tão típicos de Call of Duty. Já para os menos “crentes” ou ex-seguidores, fica aqui um convite realmente aliciante para mergulharem numa campanha que os promete colar ao assento e aquecer os dedos nesta época mais fria do ano.

Uma guerra mais social

Se é de prezar o tempo, esforço e atenção ao detalhe que a developer Sledgehammer deu ao modo campanha, a sua vertente multiplayer será, como sempre, a dimensão mais valorizada pela grande maioria dos jogadores. Ou, no mínimo, a que fará perdurar o hype e comunidade de jogadores ativa.

O modo multijogador de CoD: WWII conta com os já habituais modos de jogo competitivos, sistema de progressão e desbloqueio de novas armas, classes e skills. Conta também com o regresso do modo “Zombies”, que coloca os jogadores na pele de personagens alternativas a cooperar em missões dinâmicas e sempre diferentes de sobrevivência.

A grande novidade no que toca a esta edição de Call of Duty é o modo Headquarters. HQ é um hub social que simula um acampamento ou campo de treinos militar onde os jogadores se juntam para um ambiente muito contrastante ao combate frenético do jogo. Aqui podem iniciar momentos sociais e de maior descontração representados pelo seu soldado.

É também neste espaço que podem personalizar o seu soldado, alterar a sua aparência e armamento, e com o qual podem praticar a pontaria com alvos ou em duelos com outros jogadores que aceitem o desafio. Também aqui recebem “ordens”, (que funcionam como missões ou desafios diários ou semanais que lhes oferecem recompensas e experiência para evoluírem o seu ranking), e onde recebem as suas “supply drops”. Estas funcionam como as loot boxes (caixas com recompensas aleatórias) que estão cada vez mais presentes no mundo do gaming, para revolta de muitos jogadores. Aqui, no entanto, são apresentadas com um twist igualmente social e que já correu as comunidades online de gaming pela sua peculiaridade. As supply drops podem ser compradas e são abertas em público, o que significa que todos os jogadores em redor do recompensado veem em tempo real o que lhe calhou – há até desafios para ver um determinado número de jogadores a receber supply drops.

Se estas alterações representam uma mudança interessante e positiva no aspeto social e comunitário de Call of Duty, algumas das suas dimensões competitivas deixam mais a desejar. A desinspiração a nível de design de mapas parece manter-se desde CoD: Black Ops 2 (lançado em 2012), e WWII não veio alterar o sintoma.

Este título destaca-se pela generalidade de mapas de áreas menores para manter a ação rápida e impetuosa. No entanto, raramente se destacam pela criatividade ou por engenhos realmente memoráveis.

 

No final de contas, é um jogo que brilha pela sua jogabilidade tão instantânea e que nos oferece uma sensação gratificante em cada grande momento de combate. Quem é fã de Call of Duty vai encontrar aqui mais uma grande experiência, principalmente pelo toque refrescante de um armamento mais antiquado e “manual”, que parece exigir mais habilidade e que apresenta menos indicações em relação ao posicionamento dos adversários.

Cada vez mais cinematográfico

Call of Duty nunca pecou pela sua apresentação. Pelo contrário, as animações fluidas e armamento detalhado e fiel à realidade (e bem credível nos mundos sci-fi) em títulos anteriores, sempre foi uma das suas principais “armas” e, aqui, ganha novas dimensões.

WWII é a consagração de uma nova identidade gráfica da série e a developer Sledgehammer tira o total partido do hardware das novas consolas. Se para os menos atentos ou regulares com a saga pode nem ser algo que seja tão óbvio, a verdade é que nos deparamos com um jogo que, principalmente nos seus sectores mais cinemáticos (habitualmente reservados para efeitos de storytelling entre missões) é capaz de nos fazer esquecer que temos um comando não mão, e não um pacote de pipocas. Somos abalados por representações fotorrealistas das personagens, com expressões faciais e corporais que raramente vimos tão evoluídas e detalhadas.

Também em “jogo corrido”, no total controlo da nossa personagem, somos agraciados por texturas, sistemas de luminosidade e efeitos ambientais de grande qualidade. Nunca a versão digital da Segunda Guerra Mundial foi tão “bonita” como a que CoD: WWII nos oferece.

E nunca soou tão bem. Os excelentes visuais fazem-se acompanhar de uma produção sonora competente e de grande definição. Os tiroteios são representados como muita atenção ao detalhe, e o som de passos e balas alteram-se em função do contexto e material em que se alojam. Cada tiro certeiro e cada tiro falhado são facilmente identificáveis pelo som consequente e até mesmo os recarregamentos de munições são audíveis de uma forma muito satisfatória, oferecendo-nos a informação sonora de que há uma abertura para confrontar o adversário ocupado.

Toda a experiência single ou multiplayer acaba por ser uma jornada rica em paisagens e momentos agradáveis que contrastam de forma tocante com todas as mortes e atrocidades que rodeiam o jogador e tão certamente fizeram parte do evento histórico que representam. E aqui concebe-se o grande poder de imersão de Call of Duty.

Em 14 anos vivem-se muitas experiências. Anos bons e ótimos, outros menos bons e desapontantes. São, no entanto, 14 anos de experiência, e era apenas uma questão de tempo até que uma das séries mais emblemáticas e marcantes da história do gaming voltasse à forma. A ideia de revolucionar a identidade gráfica, cénica e da própria “timeline” do jogo foi uma aposta ganha e será um dos grandes fatores de compra para novos jogadores e antigos seguidores que precisavam de algo “refrescante”.

Call of Duty: WWII é, em todos os sentidos, um jogo de grande calibre. Os fãs não podem hesitar em voltar a pegar nos comandos. No caso de estar na dúvida entre voltar a mergulhar na série ou se há muito tempo que não o faz, não há melhor altura e título que este.

Call of Duty voltou a erguer-se e a mensagem da empresa é clara: venham pelo singleplayer, fiquem pelo multiplayer.


8 Pontuação

Call of Duty WWII


Prós

  • Singleplayer
  • Multiplayer
  • Realismo


Contras

  • Poderiam existir mais mapas
  • O storytelling é um pouco clichê

Veredito

Os fãs da série vão voltar a deliciar-se com a ação frenética, o tom sério e os momentos tensos e de cortar a respiração tão próprios de Call of Duty. Já para os menos “crentes” ou ex-seguidores, WWII é um convite realmente aliciante e bem conseguido para mergulharem numa saga que os promete colar ao assento e aquecer os dedos nesta época mais fria do ano.

Uma campanha singleplayer muito bem conseguida, principalmente quando comparada com as anteriores. Um multiplayer que não é revolucionário mas mantém a essência frenética e viciante da série.

  • Storytelling
    70
  • Singleplayer
    90
  • Multiplayer
    80
  • Gráficos e som
    85
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